30 outubro 2012

Não sei dizer o que quer dizer mas, eu vou dizer, sim.

    Na primeira semana do verão passado, o moço chegou com sua segurança protegida pela altura e um jeito doce, quase grudento. 

   Vim de um ano agarrada e alimentada pelas migalhas que os outros moços me ofereciam. Comecei a notar diferença naquele que, trazia calor ao meu verão. Por que não tentar? Claro que, igualmente os outros 99,9% pseudo relacionamentos, o moço trouxe um relacionamento mal resolvido. E quer saber o que pensei? Dane-se. Somos adultos, com histórias e pessoas especiais compondo nossas vidas. Ah, esse moço que me desejou por todo o verão e outono, com quem passei boas madrugadas, seja na rua, no bar, bebendo, fumando ou em casa. Deveria desconfiar da queda das folhas e mudança de estação.

    O inverno bateu e e ele se foi. Eu precisava demais do seu calor. Minhas declarações foram em vão, os meus cafés e cafunés, meu ouvido que sempre te escutava e a minha boca calada, afinal ele não estava interessado em me ouvir. Eu? Bem, estava exposta, com frio e sozinha. Minha mente, mais rápida que minha respiração, lembrou-me de janeiro de 2005, sentada com um pote de Nutella no frio gelado e cortante de Berlim, com aquele meu coração que até então, estava inteiro. Sou teimosa e insisti no mesmo erro, alguns invernos depois.

    Diferente daquela moça de 22 anos, fiz 30, vivi uma série de coisas e me dei o luxo de sentar, chorar e superar por alguns dias. A primavera estava chegando e queria dizer boas vindas com flores. Preparei-me para recebê-las, organizei toda a casa, joguei o peso que carregava somente por luxo e reservei o mais nobre espaço para elas. Sei e muito bem que as flores de plástico não morrem, todavia, não me interessam. Eu estava interessada nas flores vivas, as verdadeiras flores que preciso regar, trocar a água e cortar os cabos para não morrerem, mesmo sabendo que alguns dias depois, elas morreriam e eu traria novas flores para casa. Minhas flores queridas, também sou assim, caso não me cuide, morro mais rápido, mas renasço.

    Junto à primavera, veio o meu olhar atento, um coração remendado e sem amarras aos pulsos. 
Desde o primeiro momento, minha intuição disse: você terá problemas com esses olhos. Dito e feito. A impressão que tive, foi como se você me mapeasse, conseguisse enxergar além dos meus olhos. Não, eu não te dei acesso aos meus pensamentos, tampouco às minhas sensações. Me protegi da invasão, parei de te olhar, chamei a atenção gesticulando, procurando o que fazer com as mãos. Não tinha mesa, não tinha copo, não tinha cigarro. Estávamos ali, eu, você e os estranhos para figurar o ambiente. Ali, tive a confirmação da intuição. Primavera, te recebo tão bem e você me presenteia com problemas? 
    Estou aqui, aberta, de novo. Você? Algo me diz que você está pela metade, nem aqui, nem acolá. Não sei se aguento enfrentar minha teimosia tão cedo. Sequer sei, se tenho forças. Vou ficar um tempo, eu e minhas flores, meu café, minha cerveja, meus livros, minhas músicas, rodeada daquilo que me faz bem. A porta está aberta. Por enquanto.

Nenhum comentário: